Tu és

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Entender os outros é fácil. Afinal, adoramos fazer julgamentos descomprometidos. Saber de onde vem a dor da alma é que é um suplício. Acho que eu nunca usei o ato de escrever da forma mais devida. Sucumbia a postagens com muitos ‘likes’. É o preço que se paga pela sedutora vontade de ser notável em algo.

Encontrar-se perdida, ouvindo Simon e Garfunkel (que tantas lembranças emocionantes e doídas me trazem) me moveram pra cá, de novo. Reconheçam, a tristeza é o que mais move a literatura. Tristeza por amores perdidos, pela morte, pelos tempos passados que pareciam tão melhores. Taí a moda vintage pra mostrar isso: ser old school é ser cool. Deveria então escrever livros e não em um blog.

Mas um livro?! Sobre o que? Sobre a vida, como todos os outros que já foram escritos. Escreveria sobre mudanças. Quais as implicações de reviravoltas na vida de alguém? Casar, terminar a faculdade, mudar de emprego ou de cidade, ou não ter emprego, ter um filho, ter câncer, ter uma mãe, uma amiga e não ter mais.

Escreveria também sobre os amores. Sobre gatos e sobre iguanas, ambos indiferentes a vocês, cada qual à sua maneira. Acho que escreveria sobre tudo que cabe em mim. O problema é o ócio criativo que faz a gente crer que não cabe mais nada, “tô transbordando”.

Tenho vários post-its colados na parede, atrás da tela do meu computador, que dizem o que devo escrever pelos próximos dez meses. O problema real, para mim, é saber o que haverá de mim nesses escritos, o que sobra, o que tem de notável em mim.

Os gatinhos da Recoleta

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Essa semana poderia ser chamada de minha. Mas as minhas sinapses são atrevidas e ficam brincando de pega-pega com a alegria. Assim como os gatos do cemitério da Recoleta. Os gatos, acolhidos por túmulos fartos – tanto em corpos como em cimento e mármore – são dezenas ou centenas e não se escondem como os pensamentos pacíficos. O cemitério, que é morto, tem vida. Muitos vivos, assim como os gatos, vão lá atrás da paz para a vida. Oh, os fiéis de Evita! Os gatos do cemitério parecem ser tão politizados quanto os vivos: sempre atrás de um ídolo, andando lado a lado. E quem nunca esteve atrás de algo para mirar?

Sinto falta só dos beijos não dados

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Se 87% dos beijos fossem dados de olhos bem abertos o amor estaria em boas mãos. Os trocentos músculos que se envolvem com as dúzias de hormônios e bactérias dariam conta de sossegar os corações inseguros e o amor ao próximo. Não beije por vaidade. Beije por vontade. Sofra por necessidade e chore por humanidade.

Mas, beije por querer. Por vontade de amar, por vontade de ser feliz. Ainda que por disposição individualista, transfigure a condição inerente de que tudo é para o eu. Reparta. Isole-se. Tente não ser coagido.

Beije o proibido. O amigo. O irmão. Não como se fosse o último. A insanidade que nos bate frente à morte é meticulosa. Parente próximo do desespero. Quem nunca beijou com tal agonia, friccionando os lábios, tentando sentir cada sabor de cada papila gustativa.

Beije a ponta do nariz. De tal modo que o vínculo de confiança seja tamanho que o movimento não cause susto. Beije o sexo, no sexo e para o sexo. Mas beije sem sexo também. Só não esqueça de com cada beijo, provocar a alma.

Suave mente

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Após acordar ela já sentia. E como sentia. Sua casa não lhe cabia, os pés não obedeciam, a lombar não encaixava no resto do corpo, a cabeça não cessava a dor e a paz não estava visitando-a. Como de costume, pra fugir da avalanche dos sentimentos, buscou na memória algo pra interromper seu coração. Lembrou que no dia anterior chamaram-na de prática. De onde é que tiram isso se ela acreditava ser o ser humano mais emocional que ela já havia conhecido? Desconhecido era essa tal praticidade no meio de tanta subjetividade. Até a luz parecia não querer fazer parte do seu dia. Era melhor chamar de noite então.

Eu voltei, não sei se pra ficar

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A vontade de voltar a escrever vem aparecendo há um bom tempo. Por um motivo ainda não compreendido um hiato criativo se instaurou, era difícil até escrever cartões de aniversário.  As explicações do porquê tinha parado e por que não voltava estavam se acabando.  Por motivos ainda não identificados (tenho pistas, só não quero acreditar nelas), ela voltou. A felicidade também voltou, com nova roupagem, meio hypster. Ela andava travestida, sabe.
Não será mais como antes: aquela fúria para postar os sentimentos e colocá-los a prova da minha meia dúzia de leitores. Aquilo foi forte, mas passou.  A vontade de postar as sensações continua. Acho que no fundo foi isso que sempre me moveu para frente do computador para escrever aqui.
Não sei se é uma volta permanente.  Eu sei é que estas explicações não são para os leitores – adoro vocês, meia dúzia –, mas sim para eu tomar vergonha na cara e escrever. Até dar bolhas nos dedos.